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16 de abril de 2019

O SITIO DA DONA ZEFA


Ora, na frente da minha casa tem um sítio. O sitio da Dona Zefa. Não tem nome oficial, mas é assim que todos o conhecem.

Quando vim morar nesta minha casa, em 1997, o sítio tinha muitas mangueiras e Dona Zefa deitava-se numa rede, armada entre os troncos das árvores.

Gradativamente, sem que muitos percebessem, o sitio começou a ser desnudado. Primeiramente porque algumas mangueiras estavam colocando a vida das pessoas em risco, visto que comprometia a estrutura (alicerces) da casa principal. Dona Zefa ficou com muito medo e começou a derrubada. Um dia eu abri minha porta e no mesmo instante senti falta de uma mangueira - seus galhos jaziam na calçada, esperando o caminhão de entulhos para levar. Entulhos? Vejam só, aquela linda e quase centenária mangueira virou entulho.

Devido à segurança dos moradores, a casa principal que era de taipa precisou ser demolida e no seu lugar construiram uma de alvenaria. Mais uma perda, mais uma vez a modernidade corroendo o passado.

A neta, que morava com Dona Zefa, casou-se e, quem casa, quer casa. Aproveitando o sitio, só construiram outra casa, mas para tanto, sacrificaram outras árvores menores e mais uma mangueira. Sinto vontade de chorar pela natureza, toda vez que abro minha porta e dou pela falta de mais uma daquelas mangueiras que deram tantos frutos gostosos, os quais provei aos montes.

Ainda não terminaram, a destruição continua. Uma filha da Dona Zefa veio  saba-se lá de onde e começou a construir uma casa, ao lado da outra, ainda em construção. A familia destruindo a memória, varrendo o passado da matriarca, que mora no sítio há mais de 50 anos.

Dona Zeca agora está confinada numa redinha armada entre uma mangueira ressequida e a linha de sustentação da sua própria casa. Tem mais de 85 anos e ao longo desse tempo todo, afinal a conheço desde 1997, vai levando seus dias com os males da idade - diabetes, esquecimentos, fraqueza, enfim ... Mas com ela um dia irão seus sonhos, suas lembranças, sua rede, suas saudades, pois suas mangueiras a precederam. Além das incertezas que a idade traz, acrescente-se a isto, a dura realidade de que em nome do progresso, do egoísmo e da modernidade, levam-se os sonhos e a natureza morre a cada dia.

Dona Zefa sente saudades das suas lindas e frondosas mangueiras. Ela me disse isso um dia.

E foi assim!

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